Em 25 anos, mutuário paga três imóveis
Leda Rosa e Fernando Bortolin
Do Diário do Grande ABC
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Bradesco e Itaú, dois dos bancos mais ativos no crédito imobiliário decidiram elevar para 25 anos o prazo de financiamento voltado para a compra da casa própria.
Tal decisão vem num momento único. O setor de habitação registra desempenho acima do comum, como a muitos anos não se via.
Para esse segmento do mercado, prazo maior é fundamental, pois os projetos são de longo prazo e mais anos para pagar significam menores valores nas prestações mensais, em que pesa o fato de o juro ainda estar alto.
Exatamente por isso, a primeira pergunta que vem à mente é: mais prazo, prestação menor, mas com juro alto, quanto fica o preço final do bem?
A experiência mostra que no setor automotivo, que já dá prazo de até 72 meses para aquisição dos veículos, o preço final do carro representa três a quatro vezes mais que o valor do bem à vista.
O Diário pediu à Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) para contabilizar esse efeito e, segundo Miguel de Oliveira, diretor-executivo de pesquisa econômica da entidade, o valor pago ao final de um financiamento de 25 anos equivale a 150% a mais se o mesmo imóvel fosse financiado em apenas cinco anos.
EXEMPLOS
Um imóvel de R$ 100 mil, com prestação fixa de R$ 2.285,56, custará, por cinco anos, R$ 137.133,6.
Financiado por 15 anos, com mensalidades iguais de R$ 1.278,43, chega a R$ 230.117,40. Por 25 anos, e com mensais fixas de R$ 1.142,92, o consumidor paga R$ 342.876.
O exemplo mostra que a prestação mensal no contrato de 25 anos é 49,99% menor que no contrato de cinco anos. Porém, o valor final do bem cresce 150,03%.
Ou seja, dá para comprar dois imóveis e meio. Comparado ao preço à vista, dá para adquirir 3,4 imóveis.
Secovi vê medida como positiva e quer redução dos juros
Os financiamentos imobiliários de 25 anos devem ter fortes reflexos sobre o aumento das vendas neste semestre.
A previsão é de Milton Bigucci, presidente da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC, vice-presidente do Secovi e presidente da M.Bigucci, uma das maiores construtoras da região.
Para ele, a novidade é positiva e tem como principal benefício a extensão do crédito para as classes de baixa renda.
“Já há prazos de até 30 anos nos países mais civilizados, como nos Estados Unidos. Ações como essas ampliam a base de consumidores com interesse em financiar a casa própria, porque se ampliam os prazos, os valores das prestações caem.”
JUROS
Milton Bigucci defende que para o mercado de imóveis da região melhorar ainda mais seu desempenho é necessária a queda dos juros.
“As taxas ainda estão muito altas. Deveriam girar entre 6% e 8% ao ano, mas estão entre 10% e 12%”, diz.
A equação ideal seria que junto com a ampliação dos prazos de financiamento, os bancos reduzissem os juros, pois é assim que funciona no exterior. Quanto mais longo o prazo, menor o juro. No Brasil é o contrário.
Para Anefac, novo prazo traz prejuízo ao comprador
O diretor executivo da Anefac, Miguel de Oliveira, é taxativo ao condenar a nova opção oferecida pelo Bradesco e Itaú. “A vantagem não compensa a desvantagem”, diz.
“Eu sei que para muitos consumidores, a ampliação de prazo é a única maneira de encaixar a prestação no orçamento, mas na média, a mensalidade no prazo de 25 anos cai em torno de 50%, mas o valor final cresce 150%.”
Para ele, na ponta do lápis é prejuízo certo, independente do sistema de amortização da dívida contratado pelo mutuário.
“Seja no SAC ou na Tabela Price, acontece a mesma coisa. Quanto mais longo o prazo, mais caro fica o imóvel devido aos juros pagos.”
DEMANDA
Apesar do alerta da Anefac, o empresário Aparecido Viana, da Aparecido Viana Imóveis, de São Caetano, destaca que em sondagem junto aos seus clientes, a receptividade foi excelente ao novo prazo.
“A procura, por conta do prazo novo, aumentou 50%”, diz. “Uma em cada duas ofertas é aceita depois dessa ampliação de prazo.”

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