10 de março de 2010 23:53

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terceirizar serviços é opção crescente entre condomínios

Clarissa Cavalcanti
Bruna Queiroz
Especial para o Diário do Grande ABC

Terceirizar os serviços de mão-de-obra de condomínios é uma opção cada vez mais procurada por moradores que buscam redução nas contas do mês aliada a melhor qualidade dos serviços prestados. Como um dos principais atrativos, as empresas terceirizadoras defendem que o serviço pode render economia de até 20% nas contas de um condomínio. No entanto, esse argumento é contestado por parte de entidades do segmento. "A terceirização é uma tendência crescente, mas não recente. Esse fenômeno já vem ocorrendo há pelo menos dez anos, e a economia não é tão alta", avalia Cláudio Anaute, diretor de condomínios da Aabic (Associação das Administradoras de Bens, Imóveis e Condomínios de São Paulo).

 Além da controvérsia sobre o alívio financeiro resultante da terceirização, outra discussão divide adeptos e críticos dessa modalidade administrativa. Um dos argumentos contrários alerta para uma possível quebra na segurança dos condomínios, sustentando que há maior rotatividade de funcionários entre os terceirizados. "É como ter uma empregada doméstica diferente a cada mês", pondera Anaute.

 O diretor de condomínios da Abadi (Associação Brasileira dos Administradores de Imóveis), Rogério Quintanilha, afirma que a terceirização não proporciona economia expressiva. Ele ressalta que os salários dos empregados têm grande peso nas contas, porém a empresa terceirizadora terá as mesmas obrigações com os contratados, e naturalmente cobrará uma taxa por conta desse serviço.

"Se o prédio tem outros serviços pode contratar uma empresa especializada em lavanderia, por exemplo, mas terceirizar porteiro, zelador não é vantajoso." Segundo o diretor da Abadi, os condôminos inclinados a optar pela terceirização devem levar em consideração a questão de segurança, por conta da rotatividade dos empregados.

Massificação - Antonio Gobetti, diretor da empresa Gobethi, de São Paulo, que presta consultoria e assessoria de condomínios, destaca que há dúvida no mercado em relação aos riscos, mas os valores são, em média, de 10% a 20% mais baratos. "Está havendo uma massificação do serviço, mas ainda existe um pouco de restrição."

O presidente do Fenacond (Federação Nacional dos Condomínios), José Luis Bregaida, alerta que a economia proporcionada pela terceirização pode resultar em prejuízo para os condôminos. Se a tercerizadora não pagar os funcionários, o prédio irá arcar com as despesas, uma medida legal chamada pelo mercado setorial de condomínio solidário. "Para o serviço ser interessante, esta regra deveria acabar porque se a empresa fugir os moradores são obrigados a pagar os empregados."

Alexandre Catarino, advogado especializado em Direito Imobiliário e Condominial, recomenda sempre pedir que a empresa forneça o recibo de pagamentos dos funcionários, recolhimento de FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e verificar se a tercerizadora tem pendências com outros clientes.

Segundo ele, não há nada de ilegal na contratação de serviços terceirizados, porém a seleção é fundamental, já que se o condomínio escolher mal a empresa terá de arcar com as despesas. "Não tem como recorrer."

Terceirizadoras - A Holding, empresa de São Bernardo especializada em terceirizar mão-de-obra para portaria, limpeza, zeladoria e recepção, está no ramo há dez anos e já presta serviços para 60 condomínios. O diretor da empresa, Roberto Garcia Fuentes, acredita que a vantagem para os condomínios não é a questão do preço, mas o fato de receber um profissional treinado. No caso de uma ausência de funcionário é possível substituí-lo rapidamente.

Roberto Fuentes afirma que a sua empresa não tem grande rotatividade, e que sempre tenta colocar o mesmo funcionário nos condomínios.

Jeferson Nazarro, diretor de negócios da American, empresa de São Paulo que atua no mercado há oito anos, diz que a terceirização só é um problema quando é mal-feita. Quando é bem executada, defende Nazarro, há redução de custos condominiais.

Para melhorar os serviços, a empresa oferece aos funcionários assistência médica, alimentação e prêmios para os empregados. "Com essas vantagens eles ficam na empresa. Tenho porteiros que estão no mesmo setor há seis anos."

Falência - O síndico do condomínio residencial Ypes, de São Bernardo, Rogério Boriero, utiliza a terceirização na portaria há cinco anos, e na limpeza há um ano. Segundo ele, a qualidade do serviço melhorou. Porém, a empresa que Boriero contratou faliu e não tinha nenhum patrimônio. Resultado: o condomínio arcou com as despesas como se fosse o empregador. O prejuízo ficou em torno de R$ 20 mil, com impostos e outros custos administrativos.

Apesar do tombo, Boriero afirma que a terceirização facilita a administração do condomínio porque é possível trocar os funcionários até encontrar o perfil adequado. Além disso, não é preciso se preocupar com questões trabalhistas, como férias e décimo terceiro salário.

Rotatividade afeta relações, diz moradora

Silvia Maria Fantinati, moradora do condomínio Ypes, de São Bernardo, desaprova alguns dos serviços prestados pelos funcionários terceirizados. Ela explica que se o empregado fosse interno poderia dar um treinamento específico, no entanto depende de um chefe externo para tomar alguma atitude, o que dificulta a relação.

Uma das principais reclamações de Silvia é contra a rotatividade da mão-de-obra. A moradora acredita que isso prejudica a convivência com os empregados. "Os funcionários não ficam mais do que um ano. Gostaria que eles trabalhassem por mais tempo, até para dar segurança para a gente."

Apesar de não gostar, a moradora confessa que uma das vantagens da terceirização é o custo mais barato e não ter de se preocupar com rateio de férias dos funcionários entre os outros moradores.

Silvia faz parte da comissão conselheira do condomínio e durante as reuniões sobre o serviço questionou a utilização de empregados terceirizados. Ela afirma que argumentou sobre o problema da rotatividade e do treinamento dos funcionários. No entanto, Silvia acabou concordando porque foi convencida de que o valor compensava. "No final o bolso sempre pesa mais."

A grande dor de cabeça para os condôminos veio com a falência da empresa que terceirizava o serviço. "Acho ridiculo ter de pagar porque a empresa faliu, e agora dividimos o valor para pagar os funcionários."

Silvia diz que a má remuneração dos funcionários também prejudica os serviços. Ela acredita que eles muitas vezes não atendem bem porque ganham pouco. "O cara fica descontente e o trabalho não rende. As empresas deveriam pagar melhores salários."   A moradora conta que muitas vezes os funcionários não se preocupam em dizer bom dia no interfone, e por isso avalia que se ele fosse contratado do condomínio poderia treiná-lo melhor para a função. - CC

 

   


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